Olhar para a Igualdade

em nosso mundo

6 de maio de 2019

Prezados(as) amigos(as) e colegas,

Da ONU: O Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 2467 para combater “o fenômeno hediondo, bárbaro e muitas vezes silencioso da violência sexual sofrida durante conflitos”. Exigindo o fim de tais atos, o Conselho reiterou a preocupação de que tal violência muitas vezes ocorre com impunidade, está disseminada e em alguns casos “chegou a níveis terríveis de brutalidade”. O grupo de mídia independente PassBlue noticiou que depois de oposição dos EUA e um debate prolongado, na versão final da resolução foram retirados termos sobre saúde sexual e reprodutiva incluindo referências a: “saúde sexual e reprodutiva abrangente, como o acesso à contracepção de emergência, interrupção segura da gravidez e prevenção e tratamento do HIV”. O The Guardian noticiou que na versão final foi retirado texto sobre o fortalecimento de legislação que protegesse  lésbicas, gays e pessoas bissexuais e trans que viram alvos durante conflitos.

Muitos expressaram decepção  com as alterações. Em nota conjunta os agraciados com o Prêmio Nobel da Paz Denis Mukwege e Nadia Murad afirmaram:

“Simplesmente não há desculpa por continuar a abandonar aqueles que já foram vitimizados—bem como aqueles que continuam em risco—de níveis devastadores de violência sexual nos conflitos.”

O UNAIDS, em parceria com a LGBT Foundation, a Universidade de Aix-Marseille e a Universidade de Minnesota, lançou uma nova pesquisa para examinar a felicidade e a qualidade de vida das pessoas LGBTI mundialmente. A pesquisa está disponível em 17 idiomas e leva apenas 12 minutos para responder. 

A Relatora Especial sobre a Violência contra as Mulheres, Dra. Dubravka Šimonović, está solicitando colaborações para seu próximo relatório sobre violência e maus-tratos em serviços de saúde reprodutiva e durante o parto. As organizações estão convidadas a apresentar dados e outras informações específicas sobre as experiências de lésbicas, pessoas queer, bissexuais, transgênero e intersexo. O relatório visa construir uma “apresentação holística" das experiências das pessoas e fornecer recomendações para o desenvolvimento de uma abordagem à atenção à saúde baseada em direitos humanos. Acesse informações adicionais sobre a chamada aqui.

Mais sobre a ONU

 

HIV, saúde e bem-estar: O The Lancet publicou resultados do estudo PARTNER, o maior ensaio clínico a examinar o risco da transmissão do HIV durante o sexo sem preservativos entre parceiros sexuais quando um deles é HIV positivo e em tratamento antirretroviral (TARV) e o outro é HIV negativo.  O ensaio recrutou quase mil casais gays de 14 países europeus. Os homens tinham entre 31 e 46 anos de idade e incluíam 52 homens bissexuais e três homens trans. Depois de oito anos, o ensaio demonstrou que nenhum dos homens HIV negativos foi infectado pelo parceiro  em tratamento. (Quinze homens ficaram infectados, contudo os pesquisadores puderam determinar geneticamente que não foram infectados pelo parceiro estável.) A coautora do estudo, Alison Rodger, chamou os resultados de “brilhantes”: 

“Nossos achados fornecem evidência conclusiva para os gays de que é zero o risco da transmissão do HIV quando é suprimido pela TARV. Nossos achados respaldam a mensagem da campanha internacional I=I de que a carga viral indetectável torna o HIV intransmissível.”

O The Lancet publicou um editorial a respeito advertindo que embora os resultados devessem “nos inspirar e desafiar”, o tratamento tem algumas limitações. Por exemplo, segundo o editorial, pode ser difícil diagnosticar o HIV logo no início da infecção. Também: 

“Nem sempre é fácil para as pessoas fazerem o teste de HIV ou terem acesso aos serviços de saúde; além disso, o medo, o estigma, a homofobia, e outras forças sociais adversas continuam comprometendo o tratamento do HIV.”

No Burkina Faso, a Associação Africana Solidarité (AAS) faz testagem móvel com uma camioneta  para conscientizar e levar a testagem diretamente àqueles que precisam. Já o projeto REVS PLUS, também no Burkina Faso, tem enfoque em educadores de pares da comunidade de profissionais  do sexo e da comunidade LGBT para mobilizar e responder ao HIV. Escrevendo para o Equal Times, Émilie Laystary examina as táticas utilizadas pelos grupos para conseguir a África Livre da Aids.

No Quênia, em matéria no Daily Nation, Angela Oketch explorou os desafios singulares enfrentados em prisões relativos à prevenção e ao tratamento do HIV por gays e outros homens que fazem sexo com homens. 

Na Universidade de Connecticut nos EUA, um evento com o Rainbow Center do campus explorou a história das políticas governamentais com impacto nas pessoas LGBTQ+. Os palestrantes falaram sobre um amplo leque de tópicos, incluindo a crise do HIV/aids. Alguns estudantes ficaram surpresos pelos desafios enfrentados por gerações anteriores :

“Antes disso, ouvi falar muito pouco sobre a crise do HIV/aids, e é surpreendente que não aprendi nada nas aulas de história sobre algo que impactou tantas pessoas.”

Também nos EUA, a Conferência SYNChronicity sobre HIV, HCV, ISTs e Saúde LGBT teve um eixo especial sobre “Saúde Geracional”, segundo reportagem do The Body. Examinando temas como isolamento social, estigma e moradia insegura, junto com demência e outras doenças do envelhecimento, os participantes discutiram sobre novos programas voltados para o conviver com HIV acima dos 50 anos de idade.

Na conferência da Associação Britânica de HIV (BHIVA), especialistas apresentaram dados dos esforços iniciais da Public Health England para coletar dados sobre pessoas trans e não binárias  que acessam serviços de saúde em HIV.

Um novo estudo publicado na Clinical Infectious Diseases avaliou como a terapia hormonal utilizada por algumas mulheres trans pode interagir com a PrEP. A partir de uma pequena amostra de mulheres trans e mulheres e homens cisgênero, os pesquisadores observaram que as mulheres que utilizam a terapia hormonal feminina (THF) pareciam metabolizar de maneira diferente os fármacos que compõem a PrEP. Sugerem que as mulheres trans vão precisar de uma dose maior de PrEP em comparação com pessoas que não utilizam a THF, para que seja eficaz. 

O Williams Institute divulgou um novo relatório sobre o impacto da violência armada sobre minorias sexuais e de gênero nos EUA. Algumas das principais questões discutidas foram o papel das armas no suicídio, na violência entre parceiros íntimos, e na violência comunitária contra as pessoas LGBT. O relatório observa que, embora os pesquisadores recomendem intervenções específicas ou apropriadas para a população LGBT para o enfrentamento da violência armada, os dados são extremamente limitados, o que atrapalha a avaliação desses esforços. 

Mais sobre HIV, saúde e bem-estar

 

Do mundo da política: O Especialista Independente da ONU para a proteção contra violência e discriminação motivadas por orientação sexual e identidade de gênero, Víctor Madrigal-Borloz, criticou os comentários do governo do Brunei de que não vai aplicar a pena de morte para crimes como adultério e relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Madrigal-Borloz alertou que a existência dessas leis normaliza a tortura:

"A detenção [por relações sexuais consentidas entre adultos do mesmo sexo] é arbitrária, e a imposição da pena de morte é, de forma parecida, uma morte arbitrária."

 Os australianos irão às urnas nas eleições federais em meados de maio e os partidos políticos estão abordando questões LGBTI. Tanto o Partido Trabalhista quanto a Coalizão prometeram tratar da chamada terapia de conversão se forem eleitos—contudo o primeiro ministro Scott Morrison (da Coalizão) enfatizou que esta questão deveria ser tratada no âmbito estadual, enquanto os líderes Trabalhistas divulgavam uma nota com linguagem forte prometendo a proibição nacional da “prática insidiosa”. As organizações Equality Australia, Intersex Human Rights Australia e National LGBTI Health Alliance realizaram um fórum para tratar de políticas partidárias sobre questões LGBTQI+ incluindo os direitos das pessoas intersexo e intervenções médicas desnecessárias. Já o partido Verde (Australian Greens) divulgou uma plataforma LGBTQ+ que inclui a promessa de estabelecer um programa de financiamento no valor de $70 milhões para grupos LGBTIQ+ e para ações com o objetivo de acabar com a AIDS.

Também na Austrália, o movimento progressista “GetUp” incentivou os eleitores a elegerem “um parlamento livre de homofóbicos”  (..) "deixando de fora políticos da extrema direita". O The Age noticiou que uma “campanha alarmista” dirigida a sino-australianos vem espalhando mitos homofóbicos e transfóbicos sobre o programa contra o bullying nas escolas, o “Escolas Seguras”, para fazer com que o eleitorado não vote no Partido Trabalhista. 

Na Armênia, protestos anti-LGBTI continuaram após o discurso proferido no parlamento pela ativista pelos direitos trans, Lilit Martirosyan, sobre crimes de ódio. O New York Times noticiou que desde seu discurso de três minutos de duração, ela e suas colegas vêm recebendo ameaças de morte e que os meios de comunicação locais divulgaram seus endereços residenciais. Várias reportagens na mídia, incluindo uma do jornal The Guardian, informaram que um parlamentar pediu que as pessoas trans fossem queimadas vivas. A ONU, a União Europeia (UE) e as embaixadas de Estados Membros da UE criticaram o discurso de ódio e a violência. O Armenia News citou o primeiro ministro Nikol Pashinyan que teria dito: 

“Se é para falar em queimar, será que deveríamos queimar as pessoas corruptas e aquelas que fraudaram as eleições? Não acredito que alguém deveria ser queimado. A Armênia eliminou a pena de morte, e esta decisão foi adotada no âmbito da admissão da Armênia ao Conselho Europeu. Apenas posso dizer que se alguém tentar queimar outra pessoa, será rapidamente condenado à prisão.”

A Reuters examinou a crescente violência enfrentada por ativistas LGBT+ na Armênia.

Eleitores indianos continuaram a votar nas eleições gerais do país—a primeira eleição geral após duas decisões da Suprema Corte que foram muito importantes para a comunidade LGBT: a decisão de 2014, concedendo às pessoas do “terceiro gênero” a liberdade de se registrarem para votar em seu gênero escolhido, e a decisão de 2018, que descriminalizou a homossexualidade. Todos os partidos políticos têm sido questionados sobre suas políticas para a comunidade e os dois principais partidos prometeram melhorar—de maneiras diferentes—os direitos à não discriminação, ao emprego e os próprios direitos humanos. Escrevendo para o DNA, Yogesh Pawar fez uma matéria aprofundada sobre como os ativistas têm influenciado as políticas dos partidos. E em uma matéria no Times of India, Mohua Das questionou como os partidos vão cumprir as promessas feitas

Embora as questões LGBT tenham se tornado mais visíveis na eleição na Índia, nem todo mundo se sente incluído.  Para incentivar o registro entre os eleitores do “terceiro gênero”, as autoridades disseram ao The Hindu que as regras foram simplificadas. Contudo, algumas pessoas trans reclamaram que o custo é caro demais e que estão sendo exigidos documentos extremamente difíceis de obter. Mesmo Bidhan Baruah, a primeira pessoa trans do estado de Assam a ocupar o cargo de juiz no Lok Adalat (Tribunal Popular), falou para o Times of India que foi obrigada a votar como homem

Em Bangladesh, a Comissão Eleitoral começou a cadastrar eleitores com identidade de gênero “hijra”. Embora as pessoas hijra tenham sido reconhecidas pelo governo em 2013 como sendo do terceiro gênero, a Comissão somente acrescentou o termo aos cadastros eleitorais em janeiro deste ano. Em entrevista ao Dhaka Tribune, algumas pessoas se diziam preocupadas porque o termo era desconhecido fora da região e que o termo “transgênero” seria melhor para viagens internacionais. 

O partido da situação na Polônia, o Lei e Justiça (PiS), continua denunciando pessoas LGBT. A AFP noticiou que o líder do partido, Jarosław Kaczyński, acusou o movimento LGBT de ter “ideologias importadas” que ameaçam os valores poloneses. Já o ex-prefeito de Słupsk e primeiro parlamentar gay assumido, Robert Biedroń, fundou um novo partido político chamado “Spring” (primavera) para fazer oposição ao PiS em várias questões, incluindo sua política contra os direitos LGBT. Escrevendo para o Washington Post, o professor Conor O’Dwyer comparou a atual retórica tóxica da Polônia com um período em 2005 quando o governo parecia atacar questões LGBT para mobilizar sua base. O’Dwyer argumenta que a ameaça aos direitos galvanizou o movimento LGBT. 

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro foi criticado por falar para jornalistas que o país não pode se tornar um “paraíso do turismo gay”, mas que “quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”—segundo reportagem do The Guardian. A AP também noticiou que Bolsonaro obrigou o Banco do Brasil a demitir o diretor de marketing e a tirar do ar uma peça de publicidade com uma mulher trans e jovens negros. Os principais ativistas LGBT se manifestaram contra os comentários de Bolsonaro. A Aliança Nacional LGBTI+ chamou as ações do presidente de “incompatíveis com as reais necessidades do país” e prometeu “tomar todas as medidas democráticas e judiciais para que não haja retrocessos nos direitos conquistados”.

Enquanto isso, várias corporações internacionais retiraram o apoio a um jantar de gala em Nova York que seria realizado em homenagem ao presidente Jair Bolsonaro. O presidente havia sido convidado para aceitar o prêmio de Pessoa do Ano da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. A Reuters noticiou que um porta-voz da presidência informou que Bolsonaro cancelou a visita, citando a “resistência e os ataques deliberados”.  

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos (HHS) do Escritório para Direitos Civis (OCR) realizou mudanças notáveis que terão impacto para todas as pessoas, em especial a comunidade LGBTQ. A NPR noticiou que a mudança pode ser vista na declaração de missão do OCR: antes a missão constava como “melhorando a saúde e o bem-estar das pessoas em toda a nação” e garantindo igualdade de acesso aos serviços. Agora, a nova missão descreve o OCR como uma “agência de aplicação da lei” e enfatiza que protege os direitos civis e a liberdade religiosa. 

Ao mesmo tempo, o HHS dos EUA também publicou uma nova “regra de consciência” para proteger qualquer indivíduo ou organização envolvida em programas financiados pelo HHS da “discriminação pelo exercício de consciência”. Com 440 páginas, a regra define elementos da lei, ao mesmo tempo em que fornece alguns exemplos específicos, incluindo questões relacionadas ao aborto, à esterilização e ao suicídio assistido—conforme reportagem do Washington Post. A Christian Medical Association compartilhou reclamações de profissionais de saúde que acreditam ter sido penalizados injustamente por suas convicções religiosas, incluindo: um médico que se recusou a ajudar uma lésbica que queria engravidar, um pediatra que queria ter a opção de sugerir a terapia de conversão, e um ginecologista que incentivava a abstinência. 

A American Medical Association afirmou que estas mudanças prejudicariam o acesso dos pacientes aos cuidados de saúde e a informações, criariam “confusão e incerteza”, e e afetariam uma série de serviços, incluindo cuidados de saúde para pessoas LGBTQ. Louise Melling, diretora jurídica adjunta da ACLU, disse: 

“A liberdade religiosa é um direito fundamental, mas não inclui o direito de discriminar ou prejudicar os outros. Esta regra ameaça impedir que as pessoas acessem atenção médica crítica e pode pôr suas vidas em perigo. … São as normas médicas, e não as convicções religiosas, que deveriam nortear a atenção médica.”

Mais sobre o Mundo da política

 

A política e o casamento: Na Índia, o Tribunal Superior de Madras determinou que o casamento entre uma mulher trans e um homem é válido e deve ser registrado. As autoridades haviam argumentado que uma mulher trans não poderia ser considerada uma “noiva” nos termos da Lei Hindu de Casamento. Contudo, o Tribunal declarou que como a “personalidade” das pessoas trans foi reconhecida constitucionalmente, elas têm o direito às mesmas proteções jurídicas que qualquer outra cidadão. Já a Suprema Corte da Índia recusou recentemente uma petição que pedia uma revisão do direito de casamento entre pessoas do mesmo sexo, adoção e maternidade de substituição. O presidente da Corte, Ranjan Gogoi, comentou que “não estamos inclinados a receber esta petição”

No Chile, o Tribunal de Apelação de Santiago decidiu unanimemente contra o casamento de um casal gay. O advogado do casal havia argumentado que uma decisão recente da Suprema Corte estabeleceu que todo habitante do país tem o direito de casar, inclusive pessoas do mesmo sexo. No entanto, o Tribunal citou o Código Civil, que apenas descreve o casamento como sendo entre homem e mulher. A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) decidiu em 2017 que os estados membros têm que reconhecer o casamento igualitário, mas apesar disso muitos países continuam negando este direito. A Corte Suprema da Costa Rica determinou recentemente que o governo tem 18 meses para cumprir a decisão da CIDH. E, citando a CIDH, o Superior Tribunal de Justiça do Peru determinou que o casamento de duas lésbicas que se casaram no exterior deve ser incluído no Registro Civil. 

Em Taiwan, China, o município de Taipei começou a aceitar a marcação de horários por casais do mesmo sexo buscando registrar o casamento no dia 24 de maio—o dia em que acaba o prazo de dois anos para a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo determinado pelo Yuan Judicial. No ano passado a maioria da população votou contra o casamento igualitário, contudo o referendo não derrubou a decisão da corte. O Legislativo ainda está apreciando dois projetos de lei sobre casamento—um para cumprir a decisão da Corte e outro para restringir as palavras “casamento” e “cônjuge” aos casais heterossexuais. 

Em Hong Kong, a Justiça que supervisiona dois desafios legais que buscam a igualdade no casamento rejeitou uma petição feita pela diocese católica e outros grupos religiosos para participar do caso como parte interessada. O juiz Anderson Chow Ka-ming afirmou que seus argumentos não eram relevantes

“É preciso enfatizar que a corte não pode arbitrar questões sociais, morais, religiosas ou teológicas, e não julga ações com base em tais considerações … O único papel correto da corte … é determinar a aplicação estritamente baseada em considerações jurídicas.”

Mais sobre Política e casamento

 

Que os tribunais decidam: Na Turquia, o Tribunal Regional Administrativo determinou que a proibição de eventos LGBT em Ancara tem que acabar.  Em 2017, o ex-governador de Ancara estabeleceu a proibição de eventos LGBTI por tempo indeterminado para “proteger” a segurança pública. Em 2018, o 4º Tribunal Administrativo manteve a proibição do governador afirmando que em um estado de emergência a proibição não estava contra a lei.  Agora, conforme relatados pelos grupos de direitos humanos Kaos GL e Anistia Internacional, o último recurso foi bem sucedido já que a corte decidiu que:

“A proibição é indefinida e ambígua. É preciso garantir que os eventos sejam seguros, e não proibi-los.” 

Nos EUA, o Tribunal de Apelação do 3º Circuito determinou que a entidade Catholic Social Services na Filadélfia não pode receber financiamento federal e discriminar casais LGBTQ ao decidir quais famílias poderão apadrinhar crianças—segundo reportagem da NPR. Em Michigan, a AP noticiou que um grupo religioso de adoção entrou com uma ação contra o estado por impedir que grupos recebam financiamento enquanto discriminarem lares LGBTQ. A ação alega que se trata de uma violação da Lei de Restauração da Liberdade Religiosa. Já no Tribunal Distrital da Carolina do Sul, uma mulher está processando o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA por conceder isenção religiosa à entidade Miracle Hill Ministries—segundo reportagem da CNN. A Miracle Hill, a maior agência de apadrinhamento na Carolina do Sul, rejeitou uma mulher porque é católica e não protestante. Também rejeitou pelo menos dois casais judaicos, segundo reportagem do Daily Beast

Também nos EUA, a Suprema Corte aceitou três ações envolvendo a capacidade do empregador de demitir funcionários devido à orientação sexual ou identidade de gênero—conforme reportagem da AP. Tribunais das instâncias inferiores têm ficado divididos sobre a questão, com alguns decidindo que o Título VII da Lei dos Direitos Civis de 1964, que proíbe a discriminação por “raça, cor, religião, sexo, ou nacionalidade”, inclui as pessoas LGBTQ, enquanto pelo menos um tribunal decidiu o contrário. Enquanto parte do argumento defende a ideia de que “sexo” conforme definido pelo Congresso em 1964 não incluiu as pessoas LGBTQ, o The Economist aponta para a decisão do juiz Antonin Scalia de 1998 de que os homens também têm o direito de não serem assediados sexualmente no local de trabalho como fundamento para a inclusão das pessoas LGBTQ nas proteções. 

O Tribunal Arbitral do Esporte (CAS) determinou ser discriminatória a regra da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF) que impede as mulheres e meninas com níveis de testosterona naturalmente altos de concorrerem na categoria feminina, mas que tal discriminação é “necessária” e “razoável”. O tribunal afirmou que a bicampeã olímpica de corrida, Caster Semenya, deve tomar remédio para suprimir seus hormônios naturais se ela quiser continuar concorrendo. A Confederação Desportiva e Comitê Olímpico da África do Sul (SASCOC) expressou decepção “extrema” e lembrou que a ONU condenou a regra da IAAF.  O The Guardian classificou a ação como “o caso mais complexo e controverso na história dos 35 anos do CAS. O The Economist explicou que “a partir de agora, o que significa ser feminino nos esportes passará a ser determinado por uma escala móvel”. Já no New York Times, as médicas Katrina Karkazis e Rebecca M. Jordan-Young argumentaram que a ideia de que a testosterona é um hormônio que "impulsiona o desempenho atlético tipicamente masculino" é um "mito":

"A testosterona não traça um único caminho para o desempenho atlético, nem mesmo um pequeno conjunto de processos que possam fazer a ligação linear entre mais testosterona e mais capacidade."

Caster Semenya disse:

“Eu só quero correr naturalmente, do jeito que nasci.”

Mais sobre os Tribunais

 

Sobre a religião: Na Alemanha, o bispo Georg Bätzing da Diocese de Limburg pediu uma discussão sobre a bênção de relacionamentos das pessoas que não podem celebrar o sacramento do casamento na Igreja Católica. Bätzing sugeriu que isto incluiria os casais que não querem formalizar a relação por meio do casamento, pessoas divorciadas e casais do mesmo sexo:

“A oferta de uma celebração com bênção se baseia na convicção que existe o bem moral na vida em comum dos parceiros: lealdade, cuidado, responsabilidade, obrigação. Este bem merece aprovação e, onde a fé entra em ação, é uma bênção.”

No Quênia, o The Star fez uma reportagem sobre divisões entre líderes  da Igreja Pentecostal Independente Africana (AIPC). Durante uma cerimônia, o arcebispo Julius Njoroge pediu ação por parte do governo contra qualquer pessoa que tentasse dividir a igreja. Njoroge também advertiu contra gays e lésbicas e observou que qualquer membro LGBT da igreja deveria ser expulso. 

Em fevereiro a Igreja Metodista Unida realizou uma conferência sobre questões LGBTQ na igreja. Embora muitos delegados liberais esperassem ampliar a aceitação da comunidade, perderam a votação para delegados conservadores dos EUA, da África e das Filipinas. Um Conselho Judicial analisou a política do “Plano Tradicional” e manteve a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a punição de pastores que realizem tais casamentos, e a proibição de pastores LGBT—segundo reportagem do Washington Post. O UM News noticiou que alguns elementos do plano são inconstitucionais segundo a lei da Igreja, inclusive uma disposição que teria permitido que um pastor ordenado pudesse “realizar um exame para verificar se um indivíduo é homossexual praticante”.  

Na Carolina do Norte, EUA, uma seminarista e lésbica assumida, Spencer Cullom, deu entrevista para o Religion News Service sobre ter sentido o chamado para ser ordenada apesar da decisão da Igreja Metodista de não aceitá-la.  Já no estado de Nebraska, os participantes de um culto ovacionaram de pé um grupo de adolescentes que se recusou a celebrar a confirmação da fé na igreja. Os adolescentes leram um discurso denunciando o voto da denominação contra as pessoas LGBTQ+: 

“Queremos deixar claro que, ao mesmo tempo que amamos nossa congregação, acreditamos que as políticas da Igreja Metodista Unida sobre clérigos LGBTQ+ e o casamento entre pessoas do mesmo sexo são imorais … Não estamos tomando uma posição apenas para nós mesmos, estamos tomando uma posição para cada membro da comunidade LGBTQ+ que está machucado neste momento. Porque fomos criados nesta igreja, acreditamos que se nós nos unirmos por inteiro, podemos fazer a diferença” 

Mais sobre Religião

 

Medo e ódio: Em matéria para a Reuters, Michael Taylor entrevistou o ativista LGBT+ malaio Numan Afifi que disse que foi perseguido por autoridades porque compareceu ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. No Conselho, Afifi leu um posicionamento em nome de grupos LGBT+ elogiando o governo pelo empenho em combater o bullying nas escolas e pedindo que apoiasse leis contra a discriminação. Afifi trabalhava para o Ministério da Juventude e dos Esportes, mas pediu demissão após receber ameaças por seu ativismo.

A AFP entrevistou um dos oficiais militares da Coreia do Sul vítimas da “caça às bruxas” aos gays no exército que resultou na prisão de 22 soldados. Embora atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo sejam legais no país, o sexo consentido entre homens é crime nas forças armadas e tem pena de prisão de dois anos com trabalhos forçados. Todos os fisicamente aptos do gênero masculino são obrigados a prestar o serviço militar por entre dois e três anos, independente de atuarem como ativos ou reservistas. Alguns daqueles que foram presos estão contestando a lei na Corte Constitucional.

Nos EUA, o pesquisador de inteligência artificial, Os Keyes, atuou como testemunha especializada para o governo sobre programas de reconhecimento facial que estão sendo vendidos a forças policiais. Keyes deu entrevista para o VentureBeat sobre os perigos significativos desta tecnologia e o impacto que terá nas pessoas trans, especialmente as pessoas trans de cor. Keyes pediu a proibição da tecnologia: 

“Ninguém conseguiu me mostrar um caso que beneficiasse diretamente a humanidade que não pudesse ser solucionado por outros meios. É óbvio que está aberto a abusos e já foi usado [tão] indevidamente que não vale a pena seguir este caminho.”

Na Irlanda do Norte, a primeira ministra do Reino Unido, Theresa May, e o primeiro ministro assumidamente gay da Irlanda, Leo Varadkar, se reuniram com outros dignitários no funeral de Lyra McKee. McKee tinha 29 anos e era ativista LGBT e jornalista investigativa premiada, reconhecida pela revista Forbes. Ela foi morta por um integrante do New IRA (Novo Exército Republicano Irlandês), o qual depois pediu desculpas—dizendo que o atirador mirava forças inimigas ao lado dela. Muitas pessoas lamentaram sua morte. Assista à fala de McKree no TED, onde discutiu o impacto da religião nas pessoas LGBT e argumentou que conversas desconfortáveis vão literalmente salvar vidas:

"Se alguém entre vocês está desconfortável só em pensar em alguém como eu, peço que venha falar comigo no final deste evento. Não vou xingar você, não vou lhe chamar de homofóbico. Simplesmente teremos uma conversa, e eu lhe mostrarei que sou um ser humano igual a você."

Mais sobre Medo e ódio

 

Ventos de mudança: Na província de Singh no Paquistão, o Inspetor Geral da polícia anunciou que as pessoas trans serão aceitas como recrutas. Shahzadi Rai, ativista e recruta em potencial, disse que esperava que ao integrar a polícia, poderia ensinar outros policiais a terem sensibilidade para com as pessoas trans e a levar a sério suas preocupações

No município de Pietermaritzburg, na África do Sul, integrantes da Rede de Gays e Lésbicas da cidade conversaram sobre os desafios enfrentados em uma cidade tão conservadora e sobre a necessidade do apoio da família. Bongeka Sibisi, integrante da Rede, argumentou que existe muita pressão para se assumir, quando a orientação sexual deveria ser algo íntimo da pessoa:

“Somos pessoas normais assim como as pessoas hétero. Eu não me percebo como sendo diferente e não entendo porque precisamos informar qualquer pessoa sobre nossa orientação sexual, já que as pessoas hétero não precisam fazer isso.”

Na França, Frédéric Gal, diretor do Le Refuge, um grupo de apoio para jovens LGBT+ sem-teto, deu entrevista sobre como se assumir pode ser uma experiência positiva para os jovens, apesar da rejeição e violência que possam vivenciar.   

No Quênia, um homem deu entrevista para o The Star sobre por que ele não conseguiu se assumir. A aconselhadora de relacionamentos, Faith Mwangagi, falou para o The Star que muitos homens são obrigados a levar uma vida dupla.

Na Rússia, uma padaria na cidade de Kemerov chamada “Pão do Forno Russo dos Irmãos Ipatov” foi obrigada a fechar devido a “ataques falsos”. Em fevereiro, a padaria provocou uma controvérsia com placas com linguagem obscena que proibiam a entrada de pessoas LGBT. Os confeiteiros justificaram as placas dizendo que não conseguiam aguentar a responsabilidade por ajudar os gays a viverem mais um pouco comendo o pão saudável que produziam. Em resposta, jornalistas locais pediram que os serviços municipais de fiscalização investigassem a padaria em relação a vários quesitos. O coproprietário da padaria, o multimilionário German Stergilov, já foi obrigado a fechar lojas devido à reação pública sobre placas homofóbicas

No Reino Unido, Florence Schechter, fundadora do Vagina Museum, está levantando fundos para estabelecer uma sede permanente.  Schechter conversou sobre como sua equipe está trabalhando para fazer com que o museu seja inclusivo para todas as identidades de gênero

Mais sobre Ventos de mudança

 

Ambiente escolar: No Japão, um estudante universitário que se suicidou em 2015, após ter a orientação sexual revelada, está inspirando as pessoas LGBT a falarem abertamente. A família do estudante processou a universidade por não ter criado um ambiente livre de agressão. Embora o Tribunal Distrital de Tóquio tenha decidido a favor da universidade, a família vai recorrer. Agora, muitas pessoas estão compartilhando suas experiências para ajudar a explicar por que se assumir permanece sendo uma questão profundamente pessoal e privada.

Na Índia, a Universidade de Déli, com o apoio da Organização Nacional de Controle da AIDS, está lançando uma campanha comunitária de inclusão  para incentivar mais pessoas trans a se matricularem. Embora a universidade tenha estabelecido o Centro de Recursos para Transgêneros em 2018, o The Times of India noticiou que nenhum estudante trans se matriculou em cursos regulares.  

No Texas, EUA, mais de três mil estudantes da Universidade de Baylor assinaram uma carta aberta pedindo que as autoridades reconheçam grupos estudantis LGBTQ, para que lhes seja permitido realizar eventos e divulgar avisos de reuniões. O abaixo-assinado surgiu devido a um evento com um palestrante conhecido por usar linguagem anti-LGBT. A carta observa que a presença do palestrante e a divulgação da mesma “ilustra a injustiça fundamental da forma como a Universidade trata outros grupos estudantis, em especial aqueles que buscam proporcionar uma comunidade a estudantes que se identificam como LGBTQ ou pessoas aliadas”. A Universidade—uma das principais faculdades cristãs do país—proíbe a participação em “grupos de advocacy que promovam entendimentos da sexualidade contrários aos ensinamentos bíblicos”.

Na cidade de Regina no Canadá, o Centro “UR Pride Centre for Sexuality and Diversity” lançou a rede Saskatchewan Queer & Trans Youth Network (SaskQTY) ao lado do “SPACE”, um local no centro da cidade para jovens 2SLGBTQ (dois espíritos, lésbicas, gays, bissexuais, transgênero, queer) para incentivar o engajamento e enfrentar o isolamento social. O SPACE oferecerá a jovens na faixa dos 14 aos 30 anos, oportunidades de atuação voluntária, bem como atividades educacionais e culturais, e conta com o apoio do governo federal. 

Mais sobre Ambiente escolar 

 

Esportes e cultura: A Casa Real da Moeda Canadense lançou uma nova moeda de um dólar em celebração aos 50 anos da descriminalização da homossexualidade. Alguns ativistas participaram do lançamento—protestando que a luta pela igualdade está longe do fim. O parlamentar Rob Oliphant reconheceu as preocupações, mas esperou que servisse de “iluminação” para o resto do mundo:

“Esta moeda é um pequeno símbolo de um grande esforço que aconteceu e que tornou o Canadá um lugar melhor.”

A autora russa, Anastasia Sechin, conversou sobre o projeto “We Accept” (nós aceitamos) que está trabalhando para compartilhar as histórias de pessoas LGBT da Rússia, Albânia, Cazaquistão, Uzbequistão, Quirquistão, Croácia, Kosovo e Macedônia.

Madonna aceitou o Prêmio Advocate for Change da GLAAD por seu trabalho em HIV. Em discurso emocionado, Madonna explicou por que sempre sentiu uma ligação  com a comunidade LGBT: 

“Finalmente senti que eu não estava sozinha, que era legal ser diferente e não igual a todo mundo. E que afinal, eu não era uma aberração. Eu me senti em casa, e isto me deu esperança.”

Nos EUA, uma nova exposição em dois locais chamada "Arte Pós-Stonewall, 1969-1989" abriu em Nova York na Grey Art Gallery e no Leslie-Lohman Museum of Gay and Lesbian Art. A exposição inclui obras de muitos artistas e ativistas queer que foram despercebidos pela história da arte convencional. Em matéria para them, Emily Colucci entrevistou o curador Jonathan Weinberg sobre as interseções da arte e do ativismo

Na continuação de uma série, a revista online Slate pediu que pessoas LGBTQ explorassem a ideia da “cena” queer—quem faz parte e quem não faz parte, como evolui ou não evolui, e assim por diante. Jacy Topps explora como ter uma doença crônica e não poder ficar “na balada” desafiou sua capacidade de fazer parte da comunidade. James Factora questiona se os “queer cafés” podem ser chamados de alternativa “inclusiva”  a clubes de dança, já que geralmente estão localizados em áreas nobres que excluem pessoas de cor.

O jogo de tabuleiro Scrabble anunciou novas palavras que foram acrescentadas ao dicionário oficial do jogo. A LGBTQ Nation noticiou que a lista inclui o pronome neutro de gênero "ze" junto com “genderqueer” (não binário), “agênero,” “pessoa trans,” “cisgênero,” “misgender” (incompatível com a identidade de gênero) e “transfobia.”

Escrevendo para o The Guardian, Charlie Eccleshare explorou por que ser gay ou lésbica é tabu no mundo do tênis. A famosa tenista belga, Alison Van Uytvanck, que está em um relacionamento com a tenista Greet Minnen, disse que esconder a sexualidade faz mal para a personalidade: 

“Sou lésbica – não sou doente.”

Enquanto promovia seu último filme, a atriz sul-africana Charlize Theron falou com orgulho sobre suas filhas, das quais uma é trans:

“Tenho duas filhas lindas que, assim como qualquer mãe ou pai, quero proteger e quero ver prosperar...Minha função parental é celebrar sua existência, amá-las e fazer de tudo para que tenham tudo que precisam para poder ser o que querem ser.”

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"Eu não tinha ouvido falar muito sobre a crise do HIV/AIDS antes, e é surpreendente que não aprendi na aula de história sobre algo que impactou tantas pessoas."

~ Estudante, Universidade de Connecticut

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Olhar para a Iguardade (Equal Eyes) é compilado por Christina Dideriksen e Richard Burzynski. A tradução para o português é de responsabilidade do UNAIDS Brasil. As opiniões aqui apresentadas não necessariamente representam o posicionamento do UNAIDS ou de seus Copatrocinadores.

 

Todas as matérias e fotografias com links nesta publicação são de propriedade dos editores originais.
Equal Eyes Copyright © 2017 Richard Burzynski, Todos os direitos reservados.

 

Conheça as edições originais do boletim, em inglês: equal-eyes.org

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