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Remédios "mágicos" nas farmácias
CONTEXTO
A força do gogó

Hidroxicloroquina passou a ser controlada em março, junto com a cloroquina, mas esta vendeu poucas caixas. Nitazoxanida começou a ser debatida em abril, na primeira vez em que o ministro astronauta falou no assunto. Ivermectina é receitada desde abril e controlada desde julho. Azitromicina é controlada há bastante tempo, mas teve um aumento no uso depois que o governo passou a propagandeá-la como pílula mágica.

[Esta newsletter esteve em recesso temporário devido ao acúmulo de outros trabalhos na Lagom Data. Estou estudando o melhor ritmo daqui pra frente.]

Todos já vimos a importância que o inquilino do Alvorada dá à cloroquina (e hidroxicloroquina), vendendo-a como a salvação da pandemia. Sabemos o peso que ela ganhou no imaginário da população. Agora, finalmente, temos como saber o impacto comercial disso.

Em março, no começo da pandemia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) incluiu a cloroquina e a hidroxicloroquina no rol dos medicamentos com receita controlada. Em julho, a regulamentação foi aprofundada e passou a incluir nitazoxanida e ivermectina, também receitados contra a Covid por insistência do governo. A azitromicina já era um remédio controlado há bastante tempo.

Embora seja um medicamento conhecido há décadas e utilizado no tratamento de doenças virais como a malária, a cloroquina só virou o que virou porque um especulador de criptomoedas com diploma de medicina resolveu inventar um paper propagandístico visando movimentar a economia. (A história está muito bem contada numa reportagem longa da Wired de dezembro.) Do seu computador, a substância caiu nas graças de Donald Trump, e do colo deste foi parar na boca do inquilino do Alvorada. O resto da história estamos exaustos de saber.

O que não sabíamos eram este número: até agosto deste ano - os dados de setembro parecem incompletos para todos os medicamentos -, foram vendidas:

  • hidroxicloroquina: ao menos 17,6 mil caixas (preço médio R$ 50)
  • ivermectina: ao menos 645,3 mil caixas (preço médio R$ 50, receitas controladas desde julho)
  • nitazoxanida: ao menos 825,7 mil caixas (média R$ 11, controlada desde julho)
  • azitromicina: ao menos 498 mil caixas (média R$ 20 a caixa) acima da média mensal de 150 mil entre janeiro e abril

E onde vendeu mais?

Claro, sabemos que tudo vende mais em São Paulo e no Rio, devido à quantidade de habitantes. Os mapas abaixo, portanto, mostram o número de caixas por mil habitantes, em cada Estado, dos dois principais medicamentos controlados a partir da Covid-19:

Ou seja, a cloroquina vendeu melhor no centro-sul e a ivermectina saiu mais no centro-oeste e principalmente em Tocantins. A distribuição reflete bastante a renda, até porque estamos falando de vendas em farmácias com receita controlada. A distribuição em hospitais não está nessa base.

Se parece refletir a incidência conhecida, basta lembrar que Tocantins, onde a ivermectina é um sucesso, sempre foi um dos Estados que pior testam a população.

Já Brasília testa melhor mas o bicho pegou por lá. A cidade de mais alta renda per capita do Brasil, onde o inquilino do Alvorada faz propaganda de cloroquina até para as emas do palácio, apresenta os maiores índices de venda das pílulas mágicas que não funcionam.

PRECISA VER ESTES DADOS POR OUTRO ÂNGULO?

Embora os dados de medicamentos controlados estejam públicos, as bases são enormes. Sabemos das dificuldades de trabalhar com eles. Caso você ou sua empresa necessitem de algum recorte desses dados não contemplado nesta newsletter, solicite uma cotação. A Lagom Data cobra preços bem razoáveis para o serviço.

Defrag mental
O que estamos lendo, assistindo e ouvindo
Átila didático

Uma boa surpresa trazida pela pandemia foi conhecer a importância do trabalho do biólogo e divulgador científico Átila Iamarino, um craque na linguagem didática em seus vídeos. Nos conhecemos quando fui entrevistá-lo no Roda Viva, e tirei muito meu chapéu para seu trabalho. Não chegou a ser uma surpresa, portanto, saber que ele está lançando um livro didático sobre o coronavírus, ao lado de Sônia Lopes. O livro é voltado a escolas, mas serve para curiosos de qualquer idade. Traz tudo o que você precisa saber sobre a pandemia, com mapas, infografias e atividades para fixação dos conceitos. 

Os violinos punk da Noruega

Acompanho o trabalho da banda norueguesa Valkyrien Allstars desde 2008, quando eles tocaram na festa do Congresso Global de Jornalismo Investigativo em Lillehammer. Quatro músicos jovens e muito competentes, com instrumentos acústicos e vozes de ouro, colocaram para sacudir o esqueleto alguns dos maiores repórteres do mundo. O repertório é geralmente folk, mas eles correm riscos geniais como o de tocar punk rock com violino. O novo disco não passa longe de sua tradição. O Spotify põe duas letras como explícitas, mas eu não entendo norueguês o suficiente para opinar. 

Uma história de desigualdade

Até recentemente, era muito difícil obter dados sobre a concentração de renda no Brasil. As pesquisas amostrais, como a PNAD, só conseguem captar o que as pessoas afirmam - e os lares mais ricos são os que menos falam. Os dados da Receita Federal eram uma caixa-preta até que Pedro Henrique Ferreira de Souza conseguiu usar esses dados em sua pesquisa de doutorado. Ela deu origem a este livro, que é bem-escrito, denso e muito informativo.

Como o Céu é do Condor (Cultura)

O jornalista Aldo Quiroga, que apresenta o Jornal da Tarde na TV Cultura, é o mais brasileiro dos chilenos. Nesta reportagem, ele visitou sua terra natal para ver de perto a efervescência política que tomou o país há um ano, desde que os chilenos foram às ruas protestar contra a desigualdade social. Todas as insatisfações pegaram carona nas manifestações, que acabaram por reformar uma Constituição que ainda segue o texto da ditadura.

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Lagom Data

São Paulo, Brasil

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