view_in_browser
Em dólares, salário compra menos que na crise do impeachment

Em maio, valor convertido ficou no menor nível desde janeiro de 2009

por MARCELO SOARES

Uma estrada esburacada

Converter o salário mínimo em dólares dá uma medida mais dramática da perda de poder aquisitivo do salário nominal, durante períodos de crise, do que apenas atualizar pela inflação.

"Pão é trigo e trigo é dólar", como costuma dizer aquele político famoso. Farinha, gasolina, arroz... você não precisa nem gostar de vinho chileno para ser afetado pelo câmbio, dada a quantidade de produtos do dia-a-dia que dependem de commodities cotadas internacionalmente. O gráfico acima mostra isso de maneira bem impactante. 

O jeito mais tradicional de avaliar a perda de poder aquisitivo é por meio de índices de inflação, e o Brasil tem uma variedade imensa deles. Herança do período da inflação galopante, época da minha infância e adolescência (contei algo disso neste texto). No gráfico acima, você vê na linha vermelha o valor nominal do salário mínimo perdendo poder de compra ao longo do ano, até que em janeiro tem um aumentinho. Desde 2016, o salário recebido pela maioria dos trabalhadores não tem aumento real.

Embora o Brasil não tenha uma economia diretamente dolarizada como ocorre na Argentina, se convertermos o valor do salário mínimo em dólares (linha laranja) é possível localizar com certa precisão os piores momentos do país. E aí percebemos que em maio o salário mínimo esteve em seu valor mais baixo em dólares desde janeiro de 2009, no começo da recuperação da crise mundial do subprime. Ficou mais baixo até do que no pior momento do governo Dilma, um ano após sua reeleição e meio ano antes do impeachment.

Esses momentos de crise até agora foram também momentos de mudança de rumos políticos. Logo após a sua reeleição, quando o governo FHC cortou os controles cambiais e deixou o dólar flutuar, houve uma crise bastante forte que, junto ao cenário externo, favoreceu a oposição. Em 2002, boa parte da queda do poder de compra em dólares estava ligada a essa mudança, ainda. A crise de 2008, no meio do segundo governo Lula, levou a mudanças na política econômica, que no curto prazo tiraram o país da crise e fizeram a sucessão, mas eram difíceis de manter. Já a de 2015 está diretamente ligada à insatisfação que levou ao impeachment de Dilma Rousseff.

O que vai mudar com a crise da Covid, não sabemos ainda. O poder de compra está em nível de crise. A única coisa que sabemos pela evolução da linha é que não se trata de uma crise de saída relativamente rápida no câmbio como foi a de 2015. 

PRECISA VER ESTES DADOS POR OUTRO ÂNGULO?

Todos os dados utilizados nesta newsletter vêm do lago de dados organizado pela Lagom Data. Caso você ou sua empresa/organização considerem útil algum outro tipo de recorte, seja regional ou por ocupação, solicite uma cotação. Podemos preparar análises com infográficos estáticos ou interativos prontos para publicação.

Se precisa de dados detalhados da Covid no Brasil, considere fazer uma assinatura do Lagom Covid. Com ele, você tem acesso à Máquina do Tempo, que mostra o histórico de casos e mortes por município, filtrável por vários critérios.

US$ 350 em créditos do Google Cloud

Os bancos de dados da Lagom Data, incluindo todo o histórico do monitoramento da Covid nos municípios, rodam nos serviços de nuvem do Google -- especialmente no incrível BigQuery. São serviços pagos, mas o preço geralmente é razoável. Esses serviços permitem processar um volume de dados de que nenhum computador disponível no mercado daria conta. Assinantes da newsletter Lagom Insights ganham US$ 350 em créditos para hospedar e processar dados na plataform, por um ano, clicando no link abaixo para se cadastrar.

Pegue aqui seu crédito
CURSO
Venha ter aulas comigo!

Cada vez mais, dar o seu recado usando dados é parte do dia-a-dia de todas as profissões. Neste curso de quatro sábados, que ofereço no Mackenzie em outubro, vou dividir com os participantes algumas coisas que aprendi em duas décadas sobre obtenção, análise e visualização de dados.

Não importa sua área de atuação; como o curso será online e ao vivo, você também pode estar em qualquer parte do mundo. Quanto mais diversidade de experiências e lugares, melhor. A universidade oferece certificado ao final.

Conheça e inscreva-se
Defrag mental
O que estamos lendo, assistindo e ouvindo
"50 ideias de matemática"

Este livro saiu há três anos, mas tenho um carinho especial por ele. Fiz a sua revisão técnica, durante uma viagem de semiférias. Esta coleção inteira da editora Planeta apresenta conceitos de diversas disciplinas técnicas de uma maneira bastante acessível para qualquer leitor, sem precisar especialização. Este da matemática explica para qualquer fugitivo do Enem algumas das ideias mais úteis, fascinantes e reveladoras da menos apreciada de todas as disciplinas importantes.

A letragem-arte de Paula Scher (Netflix)

Demorei bastante tempo para assistir à série "Abstract", da Netflix - vários documentários com perfis de artistas, arquitetos e designers. Calhou de eu estar buscando referências tipográficas e trombar com o episódio sobre Paula Scher, que cria a identidade visual de museus. Nos anos 70 e começo dos 80, ela foi designer de algumas capas de disco icônicas do período. O trabalho dela com tipografia é de extremo bom gosto, e além de tudo ela é uma baita personagem.

Como os animais entendem números

Esta reportagem muito simpática publicada pela BBC conta como é que o mundo animal tem uma intuição numérica - sejam bichos pequenos como bactérias ou grandes como leões. Segundo pesquisadores, o número de notas cantadas pelos pássaros chickadee pode indicar a presença de predadores. Grupos de leões variam de tamanho para se defender conforme o tamanho da ameaça. Gorilas avaliam a força dos oponentes como os militares (que odeiam a comparação).

"Love Songs" (Whitesnake)

David Coverdale, a alma do Whitesnake, é o Wando do rock. Em 2005, calculei que sete a cada dez faixas da banda têm "love" no título. Para celebrar seus 69 anos completados hoje (sim, ele é um tiozão do pavê), está saindo uma coletânea chamada "Love Songs", com sucessos desde 1987. Mas só cinco das 15 faixas têm a palavra no título. Não estão lá "Looking for Love", "Gimme All Your Love", "Love Ain't No Stranger", "Fool For Your Loving" ou "The Deeper the Love". Poxa, David. 

Lagom Data

São Paulo, Brasil

facebook twitter instagram
lagom@lagomdata.com.br

Temos por princípio não incluir endereços de quem não manifestou intenção de receber mensagens. 

Descadastrar
MailerLite